19 de abr de 2011

Terremoto e Tsunami de Tohoku

Na ultima sexta-feira(15/04/2011), saímos com um grupo de aproximadamente trinta voluntários com destino a cidade de Kesennuma, na província de Miyagi-Ken. Nosso objetivo era preparar a refeição de dois dias das pessoas que estão vivendo nos abrigos da região, e levar mantimentos doados pela comunidade e comerciantes. Essa viagem teve o apoio logístico de duas "NPOs", a Koryunet e a SAB- associação amigos do Brasil, que foi fundamental para a organização e eficiência do trabalho.
Foram usados três veículos...um ônibus, uma wagon e um caminhão carregados de água, carne, arroz, e vários produtos de higiene pessoal para serem distribuídos na região afetada pelo tsunami.
Partimos aproximadamente as 19:30hrs com previsão de chegada às 6:00hrs do dia seguinte. Já depois de Tokyo, na rodovia Tohoku, dava pra perceber os estragos feitos pelo terremoto...varias ondulações e rachaduras na pista, fez com que tivéssemos que reduzir a velocidade, e quase chegando em Fukushima havia ocorrido um acidente grave na pista e tivemos que sair da expresso e andar um trecho pela via comum, daí acabamos nos atrasando um pouco.





Assim que saímos da rodovia expressa na cidade de Ichinoseki, fizemos uma ultima parada para amarrar as faixas nos veículos e em seguida partimos para Kesennuma que fica no litoral...






No centro da cidade as coisas aparentavam estar normais, as lojas abertas, carros abastecendo nos postos de gasolina, e as pessoas fazendo limpeza nas ruas...mas dava pra ver que o terremoto tinha sido forte...algumas vidraças de lojas quebradas, rachaduras em algumas casas, rachaduras nas ruas e calçadas, mas nada de muito grave.
Saímos do centro da cidade e começamos a passar por um trecho de montanhas rumo ao litoral e assim que descemos e começamos a entrar na cidade, já dava pra perceber a destruição causada pelo tsunami...varias casas destruídas e queimadas, carros jogados dentro de um canal que corta a cidade vindo do mar, e barcos que haviam sido arrastados pela onda para dentro da cidade...








Seguimos direto para o abrigo que ficava em um ponto mais alto da cidade, e lá estavam abrigadas aproximadamente 250 pessoas que haviam perdido praticamente tudo. Esse abrigo, por ser o maior da região, havia uma base do exército e eles ajudavam na organização do local.




Assim que chegamos já fomos descarregando as coisas, montando churrasqueiras, as mulheres cortando verduras, outros preparando a carne...fizemos um verdadeiro mutirão e conseguimos terminar as 500 refeições antes das 14:30hrs! Depois de servidas as refeições, começamos a nos preparar para irmos embora, porque devíamos deixar o local antes das 15:30hrs, e enquanto o pessoal ajeitavam as coisas no caminhão, eu peguei minha câmera e dei uma "escapada" e fui em direção a parte mais baixa da cidade, local afetado pelo tsunami...
Conforme eu ia descendo a rua do abrigo e ia vendo o estado daquelas casas, eu ia percebendo como a coisa tinha sido grave...






Ao atravessar para o outro lado do canal que corta a cidade, ví um cenário de destruição total!  Casas totalmente destruídas, carros amassados, edifícios queimados, navios e barcos que a onda arrastou para o centro da cidade, e quarteirões inteiros totalmente em escombros...




A onda arrastou esse barco por uns 500 metros para dentro da cidade por este canal...








Eu comecei a andar a pé naquelas rua e fotografando no meio daqueles destroços, não conseguia parar de imaginar na quantidade de pessoas que haviam morrido alí...um cheiro muito forte de água do mar e cheiro de incêndio também...foi a pior coisa que fotografei na minha vida!

  
"Pra todo lado que eu olhava, o cenário era sempre esse... destruição total!"






 "Impressionante essa imagem! A onda também arrastou esse navio para o centro da cidade e ele foi parar em cima de várias casas"














Andei naquele bairro durante uns 30 minutos e voltei correndo para o abrigo, porque o pessoal já estavam se preparando para ir para o outro abrigo...  Assim que cheguei no abrigo, o pessoal já tinham carregado as coisas para irmos embora. Nesse abrigo eles não quiseram ficar com as doações que havíamos levado. Por ser um abrigo muito grande, as regras eram bem rígidas...todas as doações que entravam lá, vinham através do exercito que era encarregado na distribuição dessas doações nos abrigos da região. As refeiçoes eram iguais para todos e se você quisesse dar um doce para uma criança de lá, teria que dar igual para todas as crianças do abrigo.
Saímos desse abrigo e fomos em direção ao outro que ficava em uma cidade vizinha e durante o trajeto, só víamos cenas de destruição mesmo!










...e conforme íamos nos aproximando novamente do litoral, o cenário ia ficando pior...










Como ainda estava cedo e a outra parte das refeições só iriamos preparar no dia seguinte em outro abrigo, resolvemos passar na praia para ver como ficou por lá...






"Cemitério totalmente destruído!"



  
Nesse prédio, disseram que funcionava uma escola do ginásio e que quando veio a onda, as pessoas se abrigaram no 3º e no 4º andar do prédio porque não imaginavam que a onda pudesse ser tão alta, e como dá pra ver na imagem, a onda chegou até o 3º andar e acabou com tudo, arrebentando as janelas e paredes, e vazando para o lado de trás do prédio, só sobrando a estrutura de concreto...deve ter morrido muita gente alí... 


Os "quebra-ondas" que normalmente ficam uns trezentos metros pra dentro do mar, foram arrastados até a praia e nem as barreiras de proteção suportaram a força da onda...





Ao deixarmos a praia em direção ao abrigo, aconteceu o que foi pra mim uma das melhores coisas da viagem... estávamos passando por um bairro onde haviam sobrado poucas casas e um vimos uma senhora na esquina de sua casa e um amigo que estava no ônibus perguntou se ela estava precisando de alguma coisa e ela disse que não tinha água para beber! Daí paramos os carros na rua e começamos a descarregar algumas caixas de água e alguns pacotes de arroz...quando olhamos para o lado, estávamos cercados de famílias que vieram pegar mantimentos, e começamos a descarregar tudo que tinha e distribuir entre essas famílias. Descarregamos todos os veículos e só não doamos o que íamos usar no dia seguinte no segundo abrigo...o restante foi tudo distribuído entre os moradores daquele bairro! No total tinham mais de 1000 litros de água, uns 500 quilos de arroz, vários itens de higiene pessoal, materiais escolares, alem de doces e chocolates para as crianças...fiquei emocionado em ver a alegria daquelas pessoas por estarem recebendo essa ajuda...e isso motivou muito o nosso grupo!









 ...partimos em direção ao abrigo com o caminhão vazio e o coração cheio de alegria...



Chegamos no segundo abrigo já no final de tarde e tínhamos que descansar um pouco e nos preparar para o dia seguinte.  Como eu e os outros motoristas não havíamos dormido praticamente nada durante a viagem, resolvemos ir dormir em um hotel que ficava a uns 50kms do abrigo, algumas pessoas foram conosco para o hotel e outras preferiram dormir no ônibus...

Esse é o segundo abrigo que fomos.


Combinamos de voltar ao abrigo as 7:30hrs e ao retornarmos o pessoal que havia dormido no ônibus, já estavam assando a carne, em seguida já começamos a montar as refeições...montamos uma verdadeira "linha de bentoya", e em pouco mais de duas horas já havíamos montado mais de 600 refeições!




Nesse dia tivemos a visita do jogador Rui Ramos, que é bem famoso aqui no Japão. Ele conversou com os desabrigados do local, jogou bola com as crianças e disse frases de incentivo a essas pessoas, que ficaram muito felizes em vê-lo! Ramos distribuiu autógrafos, assou carne com o grupo e até ajudou a carregar água...










 A principio, nesse abrigo, estava programado para prepararmos 500 refeicoes, mas como havia um grupo de bombeiros e voluntarios fazendo a limpeza em uma creche do bairro, eles nos pediram para preparar umas 150 a mais...sem problema! A "linha de produção" já estava montada e foi só dar continuidade no trabalho! rs
Foi um satisfação enorme ver todos aqueles homens dos bombeiros comendo a refeição que havíamos preparado...e no final, todos agradeceram! 




"O chefe dos bombeiros agradecendo o líder do nosso grupo."


Depois aconteceu uma coisa bem legal...eles pediram pra tirar uma foto com o grupo, e depois que fiz a foto, um deles me perguntou se eu não iria sair na foto e eu disse que não tinha problema porque todos já tinham ido embora...daí ele me disse: "Eu tiro uma foto com você!" Ele chamou mais alguns bombeiros que estavam do nosso lado, daí eu passei a câmera para um amigo e fizemos uma foto!




"Essa estatua fica no mesmo nível do chão do abrigo, e eles disseram que a água inundou esse campo que fica atrás e a água trouxe um barco enorme até esse campo, e todos ficaram rezando para não inundar o abrigo..."


Na foto abaixo da pra ter uma noção da altura que a água chegou e por poucos metros não atingiu o abrigo...o responsável pelo abrigo disse que do nível do mar até a altura do abrigo, tem no minimo 20 metros!
Ao fundo do lado direito, fica o mar e acima do lado esquerdo, está o abrigo...





Enquanto o pessoal preparavam as coisas para virmos embora, dei mais uma "escapadinha"e fui em direção da praia para fazer umas fotos...e mais destruição pelo caminho...






Um morador disse que o estrago é maior quando a água volta e vai arrastando tudo em direção ao mar com uma força incrível...reparem nessa foto como o bambuzal está caído na direção do mar...


"Postes e trilhos de trens totalmente retorcidos"








 Nesse ponto que tirei essa foto é praticamento o nível do mar, e olhando pra cima é difícil acreditar que a água tenha chegado quase no topo da montanha...( o telhado mais alto, no meio das arvores, é o do abrigo.) 


Eu fiz um vídeo pelo celular pra ter noção da altura que chegou essa onda:


 Retornei ao abrigo, e quando estávamos nos preparando para irmos embora, o responsável do abrigo veio nos dizer que todos queriam nos agradecer! Essa sem duvida foi o momento mais emocionante da viagem...todos saíram para fora pra nos cumprimentar...muitos deles chorando, um senhor de mais de 70 anos chorando igual criança! Essa imagem me marcou muito...









Nessa hora ninguém conseguia segurar a emoção, todos chorando e se cumprimentando...e enquanto eu fazia algumas fotos, fiquei reparando nessa senhora que ficava o tempo todo com esse garotinho, daí eu fui até o carro e peguei uma sacola com biscoitos, salgadinhos e chocolate, que eu havia comprado na noite anterior e dei pra esse garotinho e não esqueço o brilho nos olhos dele ao ver aquilo! E a senhora disse que ele não comia isso desde o dia do tsunami...



Nessa hora todos já haviam distribuído tudo o que haviam comprado para consumo próprio para as crianças do abrigo.
Depois disso fizemos uma foto com todos e em seguida fomos partindo...




Na hora que eu já estava dentro do carro, fiz essa foto daquela senhora que ficava o tempo todo ao lado daquele garotinho, e depois uma senhora do grupo me disse que aquela senhora tinha dito a ela que o garoto era neto dela e que desde o dia do tsunami não tiveram mais noticias dos pais dele...



Essa é uma imagem que eu não esquecerei jamais...

Saí de lá pensando no quanto somos pequenos diante de tudo isso! Bem que o Heber, que já havia ido pra lá outra vez, disse que tudo isso que estamos fazendo é muito pouco diante do que eles precisam e que quando estamos lá, nos sentimos um "nada"!
Percebi também que muitos deles precisam é de pessoas pra conversar, de uma mão para apertar...precisam de carinho!


Não posso deixar de destacar a união do grupo e a cooperação de todos! Muitos nem se conheciam, mas todos se uniram por um objetivo e no final deu tudo certo! 




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*Matéria sobre o trabalho que saiu em um jornal japonês: CHUNICHI

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